Repasse ou unidade nova da construtora?
Mesmo prédio, duas ofertas: a unidade da construtora e o repasse. Como comparar preço, fluxo de pagamento que falta e escolha de unidade sem se enganar.
Quando o mesmo empreendimento aparece à venda pela construtora e por repasse, o repasse só é melhor negócio se, somando o que você paga ao cedente e o que ainda falta pagar à construtora, o total sair abaixo do preço da tabela atual para uma unidade equivalente, e se o fluxo de pagamento que você herda couber no seu caixa. Comparar só o "valor de entrada" das duas ofertas é o erro que mais engana o comprador.
A comparação certa tem três eixos: preço total, fluxo de pagamento e unidade.
Eixo 1: preço total, na mesma régua
A construtora te mostra um preço de tabela e uma condição de pagamento. O repasse te mostra um ágio (o que o cedente quer receber) e um saldo devedor (o que falta pagar à construtora). Para comparar, ponha tudo na mesma régua.
Monte esta conta para o repasse:
- Valor pago ao cedente.
- Saldo devedor atual, conforme extrato emitido pela construtora.
- Correção que esse saldo ainda vai sofrer até as chaves, pelo índice do contrato.
- Taxa de cessão, se a construtora cobrar e se ficar com você.
E esta para a unidade nova:
- Preço de tabela hoje.
- Correção prevista sobre o saldo até as chaves, pelo índice do contrato novo.
- Desconto que a construtora dá para pagamento à vista ou com entrada maior.
Os dois totais precisam estar na mesma data-base. O modo de montar a conta do ágio com correção está em como calcular o ágio de um imóvel na planta.
Um cuidado: o preço "de tabela" que entra na comparação é o de hoje, para a mesma tipologia, posição e andar parecido. Não serve a tabela de lançamento, que é a que o cedente pagou.
Eixo 2: o fluxo de pagamento que falta
Aqui as duas ofertas costumam ser muito diferentes, mesmo quando o total é parecido.
No repasse, você herda o fluxo do cedente. Se ele comprou no lançamento, boa parte das mensais já foi paga, e o que sobra está concentrado nos reforços que faltam e na parcela das chaves. Você paga mais de uma vez no começo (o ágio) e, em seguida, encara um saldo grande num prazo curto.
Na unidade nova, o fluxo é novo. A construtora monta o parcelamento até a entrega, e o comprador dilui o pagamento pelo tempo restante de obra. Às vezes há margem para negociar entrada e reforços.
Pergunte-se:
- Quanto preciso ter em caixa nos próximos doze meses em cada opção?
- Qual é o tamanho da parcela das chaves em cada uma, e como vou pagá-la: financiamento, recursos próprios ou venda de outro bem?
- Se a obra atrasar, qual das duas me deixa mais exposto?
Muita gente escolhe o repasse pelo desconto e descobre que não tem fôlego para o saldo concentrado no fim. Outros escolhem a unidade nova pelo fluxo confortável e pagam mais caro por isso. Os dois são escolhas legítimas, desde que feitas de olho no próprio caixa. Se você pretende pagar à vista, veja também como negociar pagamento à vista com a construtora: o desconto à vista pode mudar a comparação inteira.
Eixo 3: a unidade
O repasse é uma unidade específica, já escolhida por outra pessoa. A construtora oferece o que sobrou no estoque.
O repasse pode ser melhor quando:
- O estoque da construtora restou só com unidades de posição pior (andar baixo, face sem vista, ao lado do elevador ou da casa de máquinas).
- O cedente escolheu cedo e ficou com uma das melhores plantas da torre.
A unidade nova pode ser melhor quando:
- O cedente fez personalizações que você não quer, ou abriu mão de opcionais que você quer.
- A construtora ainda permite escolher acabamento, e o repasse já passou desse prazo.
- O estoque tem justamente a planta que você procura e o repasse é de outra.
Compare unidade com unidade. Um desconto contra a tabela de uma unidade pior não é desconto.
O que muda no risco
O repasse depende da anuência da construtora. Ela analisa seu crédito e pode cobrar taxa de cessão. Até ela aprovar, o negócio não existe.
O repasse depende do cedente estar em dia. Parcela atrasada, multa e risco de rescisão vêm junto se não forem conferidos no extrato.
A unidade nova é um contrato limpo. Não há histórico, nem terceiro, nem documento do cedente para conferir. Em troca, você paga o preço atual.
Como pedir os números certos
Para comparar com honestidade, você precisa de três documentos, todos por escrito:
- Tabela atual da construtora para a mesma tipologia, com condição de pagamento.
- Extrato do contrato do cedente, emitido pela construtora, com saldo, índice e reforços que faltam.
- Valor pedido pelo cedente, já dizendo quem paga a taxa de cessão.
Com isso, a planilha se monta em meia hora. Sem isso, qualquer comparação é chute.
Onde está a informação de estoque
Em boa parte do litoral, não há levantamento público de quanto estoque cada empreendimento ainda tem. Em Porto Belo, o levantamento de empreendimentos de Porto Belo mostra o tamanho da oferta em obra e ajuda a entender por que o mesmo prédio aparece à venda por mais de um caminho. Para outras cidades, a fonte é a própria construtora e o corretor que acompanha a torre.
A pergunta certa a fazer
Ao corretor que trouxe o repasse: "qual é a tabela da construtora hoje para uma unidade equivalente nesta torre, e qual seria a condição de pagamento dela?"
Se ele responder com documento, você tem tudo para comparar. Se não souber, peça você mesmo ao plantão de vendas. É a informação que decide.
O que fazer agora
Abra uma planilha com duas colunas, repasse e unidade nova. Preencha com os números dos documentos, na mesma data-base, e acrescente uma linha com o caixa necessário em cada um dos próximos doze meses. A opção que vence nas duas linhas, total e caixa, é a sua. Se cada uma vence numa, decida qual risco você prefere carregar.