Em que fase da obra comprar um repasse
Começo, meio ou perto das chaves: o que muda no repasse em cada fase da obra em capital parado, risco de obra e saldo a financiar na entrega.
Não existe fase certa para comprar um repasse na planta. Existe a fase que combina com o seu dinheiro e com o seu prazo. Cada momento da obra troca uma coisa por outra: no começo você paga pouco agora e corre mais risco de obra; perto das chaves o risco de obra quase some, mas você precisa de mais dinheiro de uma vez e de crédito aprovado.
Comparar as fases por três critérios resolve a maior parte da decisão: quanto capital fica parado, quanto risco de obra você assume e qual é o tamanho do saldo a pagar nas chaves.
Fase 1: começo da obra
O repasse do início costuma vir de quem comprou no lançamento e mudou de ideia cedo, ou de investidor que comprou várias unidades e quer liberar caixa.
Capital parado. É o menor dos três momentos. O vendedor pagou o sinal e poucas mensais, então o reembolso a ele é pequeno. Por outro lado, você vai ficar mais tempo pagando parcelas e reforços sem nenhum retorno, e esse dinheiro sai aos poucos, por anos.
Risco de obra. É o maior. Você vai atravessar toda a construção: ritmo, eventual atraso, saúde financeira da construtora, alterações de projeto. Quem compra aqui precisa olhar a construtora com cuidado, como em como avaliar a construtora antes de comprar na planta.
Saldo nas chaves. Depende do fluxo do contrato, mas haverá muito tempo de correção pela frente sobre o que falta. Você sabe o valor original da parcela das chaves; o valor que vai pagar só se conhece no fim.
Para quem faz sentido: quem tem fluxo mensal para as parcelas, não precisa do imóvel logo e aceita o risco da construção em troca de entrar com pouco.
Fase 2: meio da obra
É a fase com mais repasse disponível em muitos empreendimentos, porque é quando os reforços começam a pesar para quem comprou contando com dinheiro que não veio.
Capital parado. Intermediário. O reembolso ao vendedor já é relevante, porque ele pagou sinal, mensais e talvez algum reforço. E ainda haverá parcelas e reforços até a entrega.
Risco de obra. Menor que no começo, porque já dá para ver o prédio subindo e comparar o andamento com o cronograma. Visite. Uma obra no meio mostra se a construtora cumpre o ritmo ou não.
Saldo nas chaves. Ainda sujeito a correção por um bom tempo, mas o horizonte é mais curto e a conta, mais previsível.
Para quem faz sentido: quem quer equilíbrio. Vê a obra existindo, tem tempo para organizar o crédito das chaves e encontra vendedor com motivo claro para sair, o que costuma ajudar no preço.
Fase 3: perto das chaves
O repasse da reta final quase sempre tem um motivo: o vendedor não conseguiu o financiamento da parcela das chaves, ou desistiu de assumir a dívida.
Capital parado. O maior de uma vez. Você reembolsa quase tudo que o vendedor pagou e, logo em seguida, precisa resolver a parcela das chaves. Por outro lado, o dinheiro fica parado por pouco tempo: em poucos meses você tem um imóvel pronto para usar, alugar ou revender.
Risco de obra. O menor. O prédio está pronto ou quase. Ainda existe o risco de atraso no habite-se e na entrega formal, e o de vícios de construção, mas você consegue vistoriar o que está comprando.
Saldo nas chaves. É aqui que o negócio se decide. Você precisa ter o crédito aprovado ou o dinheiro na mão antes de assinar a cessão, porque a mesma parcela que travou o vendedor vai vencer para você. Os motivos pelos quais esse financiamento costuma travar estão em financiamento na entrega das chaves: por que trava.
Para quem faz sentido: quem tem crédito pré-aprovado ou capital para quitar, e quer o imóvel pronto com pouco tempo de espera.
A comparação lado a lado
| Critério | Começo | Meio | Perto das chaves |
|---|---|---|---|
| Reembolso ao vendedor | Pequeno | Médio | Grande |
| Tempo com dinheiro parado | Longo | Médio | Curto |
| Risco de obra | Alto | Médio | Baixo |
| Previsibilidade do saldo das chaves | Baixa | Média | Alta |
| Dependência de crédito imediato | Baixa | Média | Alta |
Nenhuma coluna é a vencedora. A tabela serve para você ver qual combinação de risco e capital aceita.
O que muda em qualquer fase
Três coisas valem para os três momentos.
A anuência da construtora. Em todas as fases ela analisa você. Algumas restringem a cessão em determinados momentos da obra ou perto da entrega. Pergunte antes.
O atraso de obra é herdado. Quem compra o contrato assume o prazo de entrega que está nele e os direitos que ele dá. O tema completo está em atraso de obra: direitos do comprador.
O motivo do vendedor muda com a fase. No começo, arrependimento; no meio, reforço; no fim, crédito. Entender o motivo ajuda a negociar e ajuda a perceber quando o desconto esconde outra coisa, como explicamos em repasse com deságio.
O erro que mais acontece
Comprar perto das chaves contando com o financiamento sem ter a análise feita. O investidor vê um bom desconto, assina a cessão, e só então descobre que a renda comprovada não cobre o saldo, ou que o imóvel tem alguma questão documental que o banco não aceita. Fica exatamente na posição do vendedor de quem comprou.
O erro inverso também existe: entrar no começo da obra com o fluxo mensal no limite. Um reforço que pesa mais do que o previsto transforma o comprador em mais um vendedor de repasse no meio da obra.
O que fazer agora
Antes de olhar ofertas, responda duas perguntas: quanto você consegue pagar por mês sem aperto, e quanto consegue pagar de uma vez, somando dinheiro próprio e crédito que um banco já analisou. A primeira resposta diz se o começo da obra cabe. A segunda diz se a reta final cabe.
Com isso definido, filtre os repasses pela fase que combina com a sua resposta e ignore o resto, por melhor que pareça o desconto.